Após ler este artigo do Demétrio Magnoli, escrito quase um mês após a morte de Vaclav Havel, dissidente checo do regime comunista da URSS, decidi ler alguns dos seus ensaios.
Fui diretamente ao seu grande voo ensaístico “O Poder dos Sem-Poder”, de 1978, texto que desvendou o segredo do poder comunista tardio. O terror stalinista, com seu cortejo indescritível de opressão e brutalidade, era coisa do passado. No lugar dele se instalara um sistema “pós-totalitário”, expressão que não pretendia conotar a superação do totalitarismo, mas uma acomodação essencial das engrenagens de controle da sociedade. O fundamento do sistema residia na mentira ritualizada.
Destaco aqui a minha parte favorita (em tradução livre), onde Vaclav Havel descreve o meio pelo qual a autoridade paternalista utiliza a ideologia para manter o domínio sobre as pessoas:
“Ideologia é uma forma ilusória de se relacionar com o mundo. Ela oferece os seres humanos a ilusão de uma identidade, de dignidade, de moralidade e torna mais fácil a aceitação. Como repositório de algo suprapessoal e objetivo, ela permite que as pessoas enganem a sua consciência e que ocultem a sua verdadeira posição e seu modus vivendi inglório, tanto do mundo quanto de si mesmos. É um véu, atrás do qual, os seres humanos podem esconder a sua própria existência caída, sua banalização e sua adaptação ao status quo. É uma desculpa que todos podem usar, desde o verdureiro, que esconde seu medo de perder o emprego por trás de um alegado interesse na unificação dos trabalhadores do mundo, até o mais alto funcionário, cujo interesse em permanecer no poder pode ser camuflado em frases sobre o serviço para a classe trabalhadora. A principal função da ideologia é, portanto, proporcionar às pessoas, vítimas e pilares do sistema pós-totalitário, a ilusão de que o sistema está em harmonia com a ordem humana e a ordem do universo.”
Antes de Hannah Arendt iluminar os paralelos entre o comunismo e o nazismo (Origens do Totalitarismo, 1951), figuras como Victor Serge (É meia-noite no século, 1939), Arthur Koestler (O Zero e o Infinito, 1940) e George Orwell (A Revolução dos Bichos, 1945) cortaram o corpo apodrecido do sistema soviético com o bisturi da literatura e escancararam a natureza do totalitarismo. Havel inspirou-se nesses predecessores para formular o seu diagnóstico: o mal manifestava-se como linguagem – e, justamente por isso, contaminava a sociedade inteira.